Fonte: Revisa Enfoque Gospel
Rose
Guglielminetti
Como fez por
toda a sua vida, Daniel se prostrou para orar. Não havia compromisso mais
importante para esse homem do que dobrar os seus joelhos, três vezes por dia, e
render graças ao Deus todo-poderoso. Aquele dia, porém, era diferente. Pairava
sobre a cidade um decreto que poderia levar à morte pessoas que fizessem
petição a qualquer deus.
Firme em suas
convicções, e mesmo sabendo que a sua fidelidade ao Senhor poderia custar a
própria vida, Daniel não se importou. Em seu quarto, onde as janelas davam para
Jerusalém, orou ao Senhor. Esse gesto quase lhe custou a vida. A contragosto,
já que o seu preferido foi pego em franca transgressão de uma regra real, o rei
Dario teve que jogar Daniel à cova dos leões. Todos conhecem o desfecho: a
fidelidade e a misericórdia do Senhor alcançaram Daniel e o livraram da morte.
Esse
episódio, além de mostrar que Daniel era um homem de oração, também ilustra que
a Bíblia está permeada de histórias de homens que dobravam seus joelhos e
recorriam ao Rei dos reis pelos mais diferentes motivos: busca por libertação,
misericórdia, sabedoria, bênção e conhecimento, entre outros. Essa realidade,
porém, parece estar distante dos homens de hoje. Não que eles não orem, mas, em
geral, são as mulheres que predominam no ministério de oração nas igrejas.
O escritor e
presidente do Centro Mundial de Oração, Peter Wagner, observou que das pessoas
que identificam seu chamado principal como sendo de intercessão, 80% são do
sexo feminino. Aqui no Brasil, há o ministério Desperta Débora, que reúne mais
de 45 mil mães (biológicas, adotivas e espirituais) de qualquer denominação.
Elas dedicam 15 minutos por dia para orar por seus filhos. O objetivo desse
ministério, que possui 12 anos, é promover um despertamento espiritual na vida
da juventude brasileira.
O QUE É O
DESPERTA DÉBORA?
Em 1995
nascia o movimento idealizado pelo pastor Jeremias Pereira durante Consulta
Global sobre Evangelização Mundial (GCOWE 95), promovido em maio daquele ano em
Seul, Coréia do Sul. Nesse encontro, a igreja coreana consagrou cem mil jovens
de diversas denominações para a obra missionária. “Era um dia chuvoso e frio e,
num daqueles momentos de clamor, uma jovem perto de mim estava com a testa no
chão. Em oração, ela se oferecia como mártir para que ao menos uma pessoa da
Coréia do Norte entregasse sua vida a Cristo. Ao ouvir aquilo, chorei como um
menino e desejei que algo semelhante acontecesse no Brasil”, lembra Pereira.
Ainda em
Seul, ele procurou o pastor Marcelo Gualberto e juntos oraram por isso. De
volta ao Brasil, após várias reuniões entre os dois e Ana Maria Pereira, esposa
de Jeremias (já falecida), foi lançado um movimento de oração direcionado às
mães. “Entendi que nenhum movimento missionário começa sem oração. E ninguém
ora por um filho da mesma forma que uma mãe”, afirma ele.
O movimento
tem o objetivo de reunir mães biológicas, adotivas e espirituais de qualquer
denominação comprometidas em orar 15 minutos por dia para que haja um despertar
espiritual na vida de seus filhos e de toda a juventude brasileira. O nome do
projeto veio da passagem bíblica de Juízes 5.12, quando Débora, uma mãe, se
levantou para defender Israel. Ela disse para si mesma: “Desperta, Débora,
acorda!”
Se a busca de
Deus por meio da oração é inerente ao homem e à mulher de igual modo, por que
os homens não assumem o seu posto? Para o pastor Osmar Ludovico, é possível que
hoje os homens tenham assumido o espaço da pregação, restando às mulheres a
oração como forma de se expressarem verbalmente na igreja. Outro fator que pode
explicar o envolvimento das mulheres com a oração é o fato de elas serem mais
sensíveis que o sexo masculino nas questões afetivas e do coração. A compaixão,
outra característica do sexo feminino, também as faz intercederem mais pelos
outros. “Os homens se tornaram mais racionais e pragmáticos”, diz Ludovico.
Mentor e
idealizador do Desperta Débora, o pastor Jeremias Pereira alerta: “O que a ala
masculina está esperando para arregaçar as mangas e iniciar o exército
“Desperta Daniel”?”
Mentor e
idealizador do Desperta Débora, o pastor Jeremias Pereira concorda com o seu
colega. “Para ser intercessor, é necessário ter o coração compassivo e
sensível, característica maior das mulheres. Os homens, por terem os corações
mais durões, quando recorrem a Deus já percorreram um longo caminho”, avalia
ele, que é pastor da Oitava Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte.
O vendedor
ambulante Luiz Carlos da Silva conserva ao seu lado uma pasta. Não se trata de
catálogos ou folhetos de produtos, mas folhas e mais folhas de pedidos de
oração. Silva faz parte do grupo dos homens que oram. Não são raras as ocasiões
em que ele já ficou mais de três horas ajoelhado. “O mais importante é
descobrir o prazer da presença do Senhor. A intercessão pelo outro vem como
conseqüência. Às vezes, durante a oração, oro por algo que não havia pensado.
Depois anoto e passo a interceder porque sei que é da vontade de Deus”, diz.
A prática
diária da oração, para Silva, é herança do ensinamento da liderança de sua
igreja. “Meu primeiro pastor era um homem que não apenas orava, mas pregava
muito sobre oração e céu, e quase nada de prosperidade. Lembro que, na época
(1971), ele tinha um grupo de amigos que se encontravam para orar. Aprendi com
ele”, revela. Os motivos que afastam os homens da oração? “Trabalho e correria
do dia-a-dia”, resume.
Para o pastor
David de Mello Junior, líder de cerca de mil adolescentes da Igreja do
Nazareno, em Campinas (SP), é justamente a falta de consistência espiritual dos
pais que acaba refletindo na formação espiritual dos adolescentes. “Muitos pais
não sabem transmitir a mensagem porque a igreja, em alguma proporção, não se
norteia em princípios claros da Palavra para a responsabilidade familiar. Isso
gera nos pais a procura por fórmulas, paliativos, técnicas para solucionar o
cotidiano. O rumo deve ser o que Deus nos legou através da vivência familiar de
oração, reflexão bíblica e orientação espiritual na comunhão”.
A falta de
vivência familiar de oração acaba refletindo na formação dos filhos, pensa o
pastor David de Mello Junior
CAMINHO DE
VOLTA
Quando oram
menos do que deveriam, os homens cometem uma falha grave: deixar de ser o líder
espiritual do seu próprio lar, já que a Bíblia orienta que eles devem dobrar
seus joelhos para buscar orientação de Deus. Se um homem não ora, como poderá
ser líder espiritual? Com isso, pode estar abdicando de seu papel e de sua
autoridade espiritual.
Ludovico
ressalta que os homens têm que fazer um caminho em direção ao coração e à
afetividade. “A busca de Deus através da oração é sempre uma pálida resposta ao
grande amor com que fomos amados. É desejo de estar com Aquele que nos ama de
forma absoluta e completa”, diz.
Mas orar não
é pedir em prol do próprio conforto pessoal, mas desfrutar da companhia de
Deus. Quanto mais amamos a Deus, explica Ludovico, menos necessidades urgentes
e circunstanciais se tem. “A vida de oração se torna comunhão e amizade com
Deus. Orar é entrar na comunhão da Trindade”, explica o pastor, acrescentando
ainda que Tereza D´Ávila, religiosa e escritora espanhola, nascida em 1515, fez
a seguinte oração: “Que nada te perturbe, que nada te apavore, tudo passa, só
Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem tem Deus, nada lhe falta, só Deus
basta”.
Presidente da
Igreja Sara Nossa Terra, pastor Robson Rodovalho até concorda que as mulheres
são mais abertas ao mundo espiritual e que freqüentam mais as igrejas do que os
homens, e aceita a tese de que a ala feminina ora mais. Para ele, a falta dessa
intimidade com Deus é um aspecto da vida moderna. “A sociedade de hoje é muito
agitada e cheia de compromissos. Isso atrapalhou muito o devocional e a
comunhão que as pessoas deveriam ter com Deus. O homem de hoje não tem tempo de
orar como deveria”.
Jeremias Pereira
alerta que para que homens orem mais, é preciso que haja mais liderança e
mentoria. “É urgente um despertamento de homens, sejam jovens, adultos, idosos
ou crianças, para a oração. Então, o que a ala masculina está esperando para
arregaçar as mangas, assumir seu lugar nessa guerra, e iniciar o exército
“Desperta Daniel”?
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